domingo, 25 de outubro de 2009

Filmes hollywoodianos constroem relações amorosas contemporâneas

(Nayara Machado e Silvia Bertoldo)
A palestra Amores contemporâneos, uma arquegenealogia do dispositivo amoroso em filmes hollywoodianos, ministrada pela pesquisadora Elimárcia Aguiar Leite, reuniu estudantes de psicologia no Auditório Central da Universidade Católica de Brasília, na noite de terça-feira, 20/10, e usou o cinema para discutir um assunto que leva tantos pacientes ao divã: as relações amorosas.
A atividade faz parte da diversificada programação da 6ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, e também integra o programa do XI Seminário de Psicologia e I Feira de Aprendizagem, ambos realizados nos 20, 21 e 22 de outubro na UCB.
Ideal de felicidade – A partir da exibição de cenas do filme Vestida para casar (de Anne Fletcher, 2008), Elimárcia comentou alguns pontos da sua dissertação recentemente defendida no mestrado em Psicologia da UCB. No filme, a personagem Jane Nichols, vivida pela atriz Katherine Heigl, tem como ideal de felicidade se casar e alimenta secretamente um amor pelo chefe, George.
Já nas primeiras cenas do filme é possível perceber como a personagem constrói, ainda criança, essa idealização. Após ajudar a noiva que está com problema com seu vestido, Jane percebe que nasceu para ajudar a organizar casamentos e conclui que sua felicidade será completa quando vivenciar a própria cerimônia de casamento. O ideal que a faz sofrer e motivou Elimárcia a questionar como existem pessoas bem sucedidas, mas que não conseguem alcançar a felicidade por não terem um par amoroso.
Envolvimento – O filme Crepúsculo (de Catherine Hardwicke, 2008), que ressuscita de vez os arquétipos de vampiros no cinema, mostra claramente como o sujeito amoroso sofre e tenta se adequar para viver intensamente esse amor. A personagem Bella está tão envolvida e apaixonada pelo vampiro sedutor Eduard que prefere abdicar de sua condição de humana para se tornar vampira e viver para sempre com ele.
Elimárcia destacou a fala inicial do filme, feita por Bella, como ápice da necessidade de transformação: “Eu nunca pensei muito sobre como eu iria morrer, mas morrer no lugar de alguém que eu amo, parece uma boa forma de partir”.
Construindo relações – Destacou a forma como os filmes conduzem a construção de relações amorosas. O filme Prova de fogo (de Alex Kendrick, 2008) mostra muito claramente o passo-a-passo para manter e trabalhar a relação. Trabalhar a relação não é nada fácil é preciso dedicação e tempo. Também em Vestida para Casar constrói-se quase como uma receita o ideal de como duas pessoas se completam ou não, do que é ou não uma relação amorosa perfeita.
Para ela, até os filmes que tentam fugir dos estereótipos determinados, como Foi apenas um sonho (de Sam Mendes, 2008), que questiona o pós-casamento, e Sex and the City (de Michael Patrick King, 2008), que permite uma discussão acerca do casar ou não casar para ser feliz, acabam voltando ao fim comum, reafirmando o amor como máxima.
Identificação – O cinema se utiliza do recurso de aproximação do personagem ao espectador: “isso aconteceu comigo, então isso é verdade”. Não existe preocupação com a origem do caso; a preocupação é com o discurso de superfície, aonde tal situação vai levar, como será o desfecho. Não são discutidas as incoerências, a discussão é em torno de onde o personagem vai chegar.
Quando foi perguntada a que conclusão ela chegou ao fim da pesquisa, Elimárcia respondeu que a preocupação do seu trabalho não foi em conceituar o amor, mas em destacar o dispositivo amoroso. As histórias e os discursos amorosos mostram ao público que vale a pena todo o processo sofrido de transformação vivido até chegar ao final feliz.
Público – Estudantes que participaram da palestra agradaram-se com a escolha do tema. “Achei legal porque mostrou muito essa coisa do eu, pontuei os tópicos teóricos, depois eu assisti o filme e eu consegui identificar isso na minha prática”, disse Alan Junior, estudante de Psicologia da UCB.
“Achei importante porque está se discutindo uma relação de amor. Como ela colocou, a gente vê bastante isso na clínica, é um motivo que leva as pessoas a sofrer, por causa do ideal de amor romântico, então acho que é bom a gente discutir isso (...) pra poder trabalhar de várias formas dentro da clínica. Acho importante este tipo de evento, porque traz coisas novas que a gente não trabalha dentro da carga do currículo normal”, disse Cristina Gomes, também estudante de Psicologia da UCB.

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